Pergunta-me, de Mia Couto



Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue

Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos

Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente

Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer



2 comentários:

Helio Jenné 21 de Agosto de 2008 00:55  

Esse texto é muito lindo... e se fosse para perguntar de verdade, a minha pergunta seria o que sacia a sua vontade?
Beijos, Nina!

Nina Victor 21 de Agosto de 2008 07:04  

Boa pergunta, Helio.
Mas de difícil resposta, penso eu.
Quem saberá o que, de fato, dá saciedade plena?...

Beijo! :)

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